Catadores(as) e a Metrópole

Identidade, processo e luta

Catadores(as) da cidade de São Paulo

Na porta do comércio à espera. Depois de um dia cheio de trabalho, são 18 horas e essa é a última loja a ser visitada na Rua dos Estudantes, no bairro da Liberdade. Com a carroça cheia de papelão, o catador se dirige à Praça da Sé para encontrar o depósito aberto e vender os cerca de 200 quilos de material. A rua estava boa e lhe rendeu R$ 36.
O galpão é grande e o movimento começa a diminuir para o fechamento do expediente. Aparas, papel branco, papelão e papel misto são pesados durante todo o dia. É feito o pagamento na hora e os materiais são levados para o fundo da área onde serão separados, prensados e amarrados em grandes fardos. Colocam-se os materiais no caminhão com destino à indústria recicladora. Os 200 quilos de papelão agora valem R$ 66.

Indústria de papel e celulose. Os pedaços de papelão são jogados em uma espécie de “liquidificador gigante” e efetiva-se o processo de reaproveitamento que culminará com a produção de caixas dos tipos maleta normal, envoltório, corte e vinco. Embala-se as novas caixas que são encaminhadas à distribuidora. O quilo de caixas de papelão é vendido ao comerciante, em preço de atacado, por R$ 0,60. Se forem 200 quilos, a venda se realizará por R$ 132. O compra se realiza e o produto está de volta à cadeia produtiva.
O exemplo fictício com preços reais demonstra de forma sucinta um pouco da complexa lógica da reciclagem na capital paulista. O catador é figura marcante neste processo e não só no que se refere à coleta de papelão, como no exemplo citado acima, mas na reciclagem de demais tipos de papel, de plástico, de vidro, entre outros.

A cidade de São Paulo produz 18 mil toneladas de resíduos sólidos por dia. Deste total, cada paulistano é responsável pela geração diária de 1,5 kg de resíduo domiciliar. Estima-se que menos de 2% desses resíduos sejam reciclados.

Diante da abrangência do tema e de suas inúmeras especificidades, este livro se dedica a expor o contexto em que estão inseridos os catadores de materiais recicláveis que sobrevivem por meio da coleta seletiva de resíduos sólidos domiciliares, classificados como não inertes, secos e inorgânicos. Mesmo que, em alguns momentos, apareçam neste livro dados referentes à totalidade de resíduos, ou mesmo à totalidade do lixo produzido pela cidade, objetiva-se apresentar o trabalho, as histórias e os conflitos do profissional catador, dando maior atenção à ampla maioria de materiais com os quais trabalha.

De acordo com a Prefeitura, há cerca de 20 mil catadores de materiais recicláveis na cidade, sendo que cerca de 16 mil trabalham de maneira autônoma e individual, cerca de um mil em cooperativas conveniadas com o governo municipal e três mil em demais cooperativas e associações. Desta forma e diante de inúmeras visões sobre o dia a dia destes indivíduos, não se pretende senão outra coisa que dar perspectivas possíveis sob o olhar de alguns destes indivíduos e de demais agentes que estão relacionados à coleta seletiva na cidade.

É válido, já em um primeiro momento, destacar que este livro não fala exatamente dos catadores, mas sim das catadoras de materiais recicláveis de São Paulo. Bem como o leitor poderá acompanhar nesta produção, estima-se que 80% de toda esta classe trabalhadora no Brasil é composta por mulheres, o que se evidencia por meio do exemplo da cooperativa Filadelphia que, à época de nossas entrevistas, era formada unicamente por 22 catadoras.

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A divisão do livro é feita em quatro eixos temáticos que, em aspectos gerais, tratarão a gestão dos materiais recicláveis em São Paulo, a trajetória e o perfil de alguns dos seus catadores, a interação destes trabalhadores com o processo da reciclagem e, por fim, os desafios e as lutas para a melhoria de condições de vida e de trabalho destes indivíduos.
O primeiro eixo temático “ A metrópole ” trata da evolução da organização das cooperativas nos últimos dez anos com a criação das centrais de triagem pela Prefeitura. Ao traçar breve contexto em que construídas estas centrais, relata-se a utilização de aterros sanitários e a discussão em torno do contrato firmado entre a municipalidade e as concessionárias Loga e EcoUrbis.

Além disso, há a constatação dos conflitos políticos e estratégicos que se estabelecem a partir da ameaça da incineração e da concretização do Plano de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos de São Paulo. Não se esquecendo das próprias características de uma metrópole, como trânsito intenso e violência urbana, são realizadas pequenas narrativas de situações vivenciadas por catadores anônimos no dia a dia da capital.

“Identidade” é o segundo eixo temático do livro e faz reflexão sobre os mais diferentes perfis destes trabalhadores na cidade. Por meio de análise da mestre em educação, Gabriela Couto, evidencia-se que esta categoria não é uniforme no que diz respeito à formação destes profissionais e suas perspectivas para a reciclagem e para o futuro de suas trajetórias.
Neste sentido, são apresentadas narrativas que abordam as histórias de Avelino, Vera, Giovani, Socorro, Kelly, Maurício e Selma. Com estas personagens, pretende-se evidenciar questões relacionadas aos vários contextos da reciclagem com exemplos que demonstram a diversidade e a complementaridade dos catadores encontrados em nosso processo de apuração, seja nas ruas do centro da cidade, seja em cooperativas conveniadas ou não com a Prefeitura.

Na parte central do livro, o leitor poderá apreciar a percepção e o olhar da fotógrafa Maria Júlia Carvalho ao retratar em imagens alguns dos catadores e catadores que encontramos durante o processo de apuração deste projeto. Já o terceiro eixo, “Processo”, apresenta a lógica de trabalho do catador de materiais recicláveis da cidade de São Paulo. Para este fim, aborda a rotina destes profissionais, tanto dos que trabalham em cooperativas quanto dos que se dedicam à função de forma individual. Em seguida, o foco recai sobre a relação dos catadores com os intermediários, ou atravessadores, que compram os materiais coletados e separados por cooperativas e por grupos de catadores autônomos e os revendem para as indústrias.

O capítulo final deste eixo, “O topo da cadeia” traz à cena a indústria, compradora final do processo de reciclagem, que pela voz de representantes do setor de embalagens, de papel e de vidro, levanta a problemática do consumo, de produção e de preço dos materiais. E aborda, também, a posição desses empresários com relação às exigências da Política Nacional de Resíduos Sólidos.

E dando cabo aos eixos do livro, “Luta” retrata a história dos 13 anos do Movimento Nacional dos Catadores, suas bandeiras e conquistas, bem como as dificuldades de apoio de suas bases, e as críticas que delas recebe. Também fica registrado nesta ultima parte do livro, o esforço de resistência de uma cooperativa que teve sua sede incendiada e precisa submeter-se a condições de trabalho muito restritivas para continuar funcionando.

Em suas páginas derradeiras, o livro traz a experiência de Pedro, um catador que deixa a carroça para ser líder comunitário, e de Dona Tereza, a mineira conhecida como “a catadora mais antiga do país”, que, entre outras ações , proveu abrigo para seus 45 filhos, sendo 43 adotivos.

Por fim e como apoio à leitura, pode-se encontrar um glossário de termos específicos sobre os catadores e sobre o processo de reciclagem e uma linha do tempo com as principais datas e marcos sobre o trabalho dos catadores na capital paulista.

*Foto de um grafite em galpão próximo à cooperativa Coopamare.

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