Catadores(as) e a Metrópole

Identidade, processo e luta

Que cresceram com a força de pedreiros suicidas*

A relação entre a cidade de São Paulo e os catadores de materiais recicláveis vai muito além das políticas de governo ou das questões estruturais e, até mesmo políticas, de grupos organizados em cooperativas ou associações.

Não são poucos os relatos de catadores que perderam seus materiais nas ruas da capital (quer pela insegurança, quer pelo autoritarismo do governo do município), sofreram situações arriscadas com a quebra de suas carroças em meio ao trânsito agitado ou que foram agredidos física ou verbalmente por motoristas apressados, donas de casa inseguras e indivíduos que não conseguem enxergar no catador uma classe legítima de trabalhadores.

As histórias são sempre tensas e mesclam a vontade de desabafar com o receio de identificação. Neste trabalho de apuração que durou cerca de um ano, muitas foram às vezes em que as entrevistas não duraram mais de dez minutos, que catadores não quiseram falar seus nomes ou mesmo que não quiseram interromper seu trabalho para responder perguntas no meio de trânsito agitado do centro de São Paulo, por exemplo. Seguem alguns fragmentos de histórias desses momentos:

Denis Rodrgues

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João Vitor conta da vez em que sua carroça chocou com um veículo. “Não fez nem arranhão e o cara quis brigar. Eu não tenho sangue de barata e revidei o xingamento, aí ele desceu do carro e me deu um murro que até me arrancou um dente”, conta o catador.
Para João, na rua tem de tudo. Ele conta das vezes em que se sentiu menosprezado ao entrar em mercado e ser seguido pelo segurança do estabelecimento. Mas não deixa de lembrar, também, das doações que costuma receber na rua. “Já recebi até R$ 50. Eu não quero esmola de ninguém não, mas sempre é bom uma ajudinha já que tem dia que é difícil na rua”, constata.


Miguel passa entre carros e motos, faz a curva da Rua Venceslau Brás, a uma quadra da Praça da Sé no centro de São Paulo. Nós sinalizamos, ele para e aceita conversar por alguns poucos minutos. “Os automóveis não xingaram e buzinaram só porque vocês estão aqui comigo”, diz pra justificar o porque ainda não tínhamos recebido gritos e porque nenhum carro buzinou enquanto estávamos parados no canto da via.
O catador trabalha em uma cooperativa localizada a cerca de 20 quadras do local em que o encontramos, na chamada baixada do Glicério. Aposentado e com 67 anos, ele começou a se envolver com reciclagem há cinco anos para complementar a renda, “porque não dá sobreviver somente com a aposentadoria”. “Eu estou na cooperativa para ter um registro e não perder meus instrumentos de trabalho. Se o catador não for autorizado, a Prefeitura vem e toma. Graças a Deus nunca aconteceu comigo, mas vários amigos meus perderam o carrinho porque não tinham cadastro”, diz Miguel.

A lógica da cidade não é a mesma para todos os catadores. “Quem passa na rua e me vê dormindo não sabe que eu fiquei a noite inteira catando papelão”, conta de forma rápida Antônio quando conseguimos pará-lo para duas perguntas: a melhor e a pior coisa da reciclagem em São Paulo. “A pior é que tem pessoas que acham que a gente é vagabundo. Às vezes podem estar andando com o carro do patrão e sem um centavo no bolso, mas ficam xingando quando passam pela gente”, relata o catador que afirma que as amizades que fez na rua são a melhor coisa de seu trabalho.

Além de abarcar questões estruturais complexas e a taxativa “correria e frieza” paulistana, a cidade proporciona momentos valiosos para a reciclagem. Eventos como a Virada Cultural, o Carnaval, o aniversário de São Paulo, a Parada Gay, a Marcha para Jesus, e as festas do dia Sete de Setembro e da Virada do Ano. Nessas ocasiões milhares de pessoas saem às ruas da capital e, consequentemente, levam para suas vias uma grande quantidade de um dos materiais recicláveis mais raros e caros: a latinha de alumínio.

No aniversário da cidade, passamos por Elisa que, encurvada e com a cabeça baixa, carregava um saco preto e procurava latinhas no chão do Vale do Anhangabaú. Para a abordagem, levo uma lata de cerveja vazia, recém-terminada, e puxamos assunto para ouvir um pouco de sua história como catadora. Bem como Elisa, dezenas de pessoas aproveitam a data para ir à caça das latinhas em meio à aglomeração de pessoas.
Ela trabalha com jardinagem no Parque Ecológico do Tietê, mora em um albergue no Brás, ambos na zona leste da cidade, e cata latinha desde o tempo em que dormia nas ruas do centro. “Agora que eu estou dormindo no albergue posso trabalhar e só pego latinha quando tem algum evento grande. É o que dá mais dinheiro e dá pra achar bastante em dias como esse. O difícil é a concorrência”, relata a catadora-jardineira.

“Ele é maluco e a gente aqui não concorda muito com o que ele faz não. Não é algo que faça bem para o corpo dele e nem para a cooperativa”, confessa Ademir ao falar de seu companheiro de trabalho Carlos. Carlos José trabalha em uma cooperativa, também na região central da cidade, e, no momento em que chegamos, está terminando de retirar o papelão da maior carroça que encontramos durante a produção deste livro.
Ele olha desconfiado enquanto nos aproximamos e responde de maneira ríspida até começar a contar vantagem de suas conquistas com a reciclagem. “Catando eu consegui comprar meu carro e minha casa. Podem falar o que for, mas eu faço o meu trabalho e não devo nada a ninguém”, diz o catador alisando as barras de metal de sua principal ferramenta de trabalho.
Carlos ressalta sua independência financeira e não para de trabalhar na uma hora e meia em que permanecemos dentro da cooperativa. “Eu chego aqui umas 5h e só vou embora 1h da manhã do dia seguinte. Tem dia que eu pego 800 quilos de material e só a carroça tem mais de 200. Comigo é assim… Não tem meio tempo não”, se vangloria.

*Texto presente no livro “Catadores e a metrópole: identidade, processo e luta”, a partir da página 67 do eixo temático “A metrópole”.

**Imagem retirada de pintura do artista plástico Denis Rodrigues.

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Publicado às 04/06/2013 por em O Livro e marcado , , , , , , , , .

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