Catadores(as) e a Metrópole

Identidade, processo e luta

ABCD quer quadruplicar número de catadores cooperados

Na quinta reportagem da série, levantamento da Coopcent revela que, dos 1,2 mil catadores da Região, apenas 180 estão organizados; meta é que esse total chegue a pelo menos 800 até 2015

Entre 2015 e 2017, a maior parte do ABCD planeja reciclar 10% dos resíduos. Para tanto, as prefeituras, por meio do Consórcio Intermunicipal, em parceria com a Coopcent ABC (Cooperativa Central de Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis), querem mais que quadruplicar o número de catadores. O objetivo é elevar o número de agentes ambientais da Região em cooperativas e associações em 344%, passando de 180 para 800 cooperados. As exceções são Santo André e São Caetano. A primeira não integra a Coopcent, mas planeja duplicar os atuais 54 cooperados. Já a segunda não tem catadores, mas almeja atingir 40% de resíduos reciclados até 2015.

A iniciativa não busca apenas aumentar a quantidade de resíduos reciclados, mas atender a Política Nacional de Resíduos Sólidos que estimula o viés social da reciclagem. O foco é tirar os catadores da informalidade e de trabalhos precários em ferros-velhos e dar condições dignas de trabalho e renda. Levantamento realizado pela Coopcent ABC, no ano passado, revelou que a Região possui aproximadamente 1,2 mil catadores informais, que trabalham nas ruas à mercê de atravessadores que revendem os recicláveis para sucateiros ou indústrias, diminuindo em até quatro vezes suas rendas.

A ideia da Coopcent ABC é mostrar os benefícios do cooperativismo por meio da qualificação dos catadores avulsos. Se por um lado os catadores informais recebem aulas sobre cidadania, cooperativismo e o processo de coleta de resíduo, os já cooperados aprendem sobre logística reversa (na qual o produtor é responsável pela coleta do resíduo), noção administrativa e contábil. No total, serão investidos R$ 2 milhões, vindos da Senaes (Secretaria Nacional de Economia Solidária), nos processos de qualificações que foram iniciados em 2012.

CooperCent ABC

 

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Desafios

“O trabalho cooperado para quem atua na rua é um desafio, porque tem horários e responsabilidades. Mas o maior incentivo para a troca é o valor que se ganha”, avaliou Gina Rizpah Besen, consultora na área de gestão de resíduos sólidos no Instituto 5 Elementos. Nesta perspectiva, Gina lembra que a Política Nacional determina que prefeituras e indústrias passem a remunerar o trabalho dos catadores como prestadores de serviços. “Os catadores não vão ganhar apenas pelo material reciclado, mas pelo serviço prestado aos municípios e empresas”, explicou.

Neste sentido, o ABCD saiu na frente. Diadema foi a primeira cidade do País a remunerar os catadores e ajudar a complementar a receita vinda da comercialização dos recicláveis. A ideia da Prefeitura era simples, pagar aos catadores por tonelada reciclada o mesmo valor destinado à empresa Lara para enterrar o lixo. De acordo com a Coopecent, atualmente Mauá e Ribeirão Pires também estão implantando o sistema.

Além de ampliar o número de catadores, as prefeituras do ABCD planejam criar mais PEVs (Postos de Entrega Voluntária), ecopontos (locais para descarte de resíduos reciclável) e investir em campanhas de conscientização da população para conseguir aumentar a quantidade de materiais recicláveis. No caso do Semasa (Serviço Municipal de Saneamento Ambiental de Santo André), que já tem a coleta seletiva porta a porta em 100% do município, a Prefeitura ainda investirá na compra de equipamentos para as cooperativas.

Em São Caetano, onde a coleta seletiva porta a porta também engloba 100% das residências do município, o objetivo da Administração é ampliar o programa para os edifícios. Já em São Bernardo, o porta a porta será iniciado pelo Rudge Ramos, no dia 5 de junho. A expectativa é expandir a iniciativa para todo o município até o final de 2014. Em nota, Diadema explicou que as ações de ampliação da coleta seletiva estão sendo estabelecidas no plano municipal que será entregue em junho. Procuradas, as demais prefeituras não informaram seus planos para aumentar as porcentagens da reciclagem.

Taxa de lixo precisa ser mais justa, diz especialista

Apesar dos incentivos e determinações da Política Nacional de Resíduos Sólidos, a coleta seletiva ainda enfrenta alguns gargalos para se tornar abrangente.

Entre os problemas que são apontados pela consultora na área de gestão de resíduos sólidos Gina Rizpah Besen, do Instituto 5 Elementos, está a taxa do lixo.

De acordo com a especialista, o valor cobrado no IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano) não corresponde ao valor correto e deveria ser ampliado.

“As pessoas querem produzir, mas não querem pagar pelo serviço de destinação correto. Hoje a taxa do lixo não cobre as despesas, é preciso mais”, avaliou Gina Rizpah Besen.

Além de defender o aumento da taxa de lixo, Gina também aponta a falta de equipe técnica nas prefeituras como um empecilho. “Falta pessoal preparado para lidar com a inclusão dos catadores. Isso exige trabalho intersecretarial e não vemos isso”, destacou.

Preço – Outro entrave, na avaliação da especialista do Instituto 5 Elementos, é a balança entre o crescimento do mercado e o preço dos recicláveis.

“A reciclagem deve ser sustentável. Se por um lado temos de reciclar, por outro é preciso ficarmos atentos à absorção feita pelo mercado”, comentou.

Na avaliação de Gina, para alguns materiais, como pet, o mercado é grande, mas para outros, como plástico e vidro, ainda há complexidade. “Não podemos permitir que o preço dos materiais caia e a reciclagem deixe de ser atraente”, afirmou.

Fábrica de varais a partir de garrafas pet também produzirá vassouras

Faz oito anos que a Coopcent ABC transforma garrafas pet coletadas pelas cooperativas e associações de catadores de Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e São Bernardo em varais. O processo, além de sustentável e ecologicamente correto, agrega valor à matéria-prima e aumenta a renda dos agentes ambientais. Neste ano, o grupo pretende expandir os negócios e usar os fios de pet para confeccionar vassouras.

“No momento estamos trabalhando no desenvolvimento do maquinário, mas esperamos iniciar o trabalho em três meses”, destacou Lenice Gomes Pereira de Lima, 33 anos, catadora e coordenadora da fábrica de varal pet. Assim como as máquinas dos varais, o maquinário das vassouras está sendo desenvolvido pelo catador Claudinei de Lima. O galpão em Diadema, onde atualmente funciona a fábrica de varais, também deverá passar por ampliação para absorver o novo produto.

A fábrica produz 10 mil varais por mês, que são vendidos em lojas e mercados do ABCD. De acordo com Lenice, cada garrafa gera em torno de 10 metros de fios de pet, o que corresponde a um varal. O processo de transformação é simples: uma máquina é responsável por cortar o fundo da garrafa, desfiar, lavar e enrolar em carretéis o material. Depois disso, os carretéis são colocados nas trançadeiras que transformam os fios em varais. Em seguida, o varal segue para a máquina de acabamento, onde é medido, empacotado e lacrado.

“Tenho orgulho de trabalhar na reciclagem, pois pego algo que as pessoas pensam não ter mais utilidade e transformo em um novo produto”, destacou Lenice, que atua no ramo há oito anos. O orgulho também é a palavra que permeia a vida da catadora e coordenadora administrativa financeira da Coopcent, Kelly Janaina Monteiro, 33 anos. “Trabalhar com a reciclagem foi o que escolhi para minha vida. Todos os dias ajudamos a melhorar o meio ambiente, e isso é único.”

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*Foto: Incubadoras ABCSOL

Matéria publicada no site do jornal ABCD Maior – Veja publicação original.

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Informação

Publicado em 06/06/2013 por em Na mídia.

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