Catadores(as) e a Metrópole

Identidade, processo e luta

Cooperativas de reciclagem se preocupam quanto ao futuro de catadores em São Paulo

Após anúncio de centrais de reciclagem mecanizadas e a perspectiva de aumento de 2% para 10% dos resíduos recicláveis na cidade, permanecem dúvidas quanto à inclusão de catadores

 

03/07/2013

 

Gabriel Salgado,

de São Paulo (SP)

 

Há cerca de um mês, chegam apenas um dos três caminhões de coleta seletiva da prefeitura na cooperativa Filadelphia, localizada no bairro Itapema, na zona leste da cidade de São Paulo. Apesar de não ser uma das 20 cooperativas conveniadas com o governo municipal, a Filadelphia trabalha com materiais recicláveis coletados pelos caminhões compactadores da concessionária EcoUrbis e nenhuma de suas 20 cooperadas precisa sair para a rua com os chamados “carrinhos” ou “carroças”.

No caso da Fidadelphia, o salário varia de acordo com a quantidade de tempo de trabalho. Atualmente, o valor estipulado pelas catadoras é de quatro reais por hora. De acordo com as cooperadas, com a redução de material há dias em que só conseguem trabalhar até o meio dia e, consequentemente, vão receber menos no fim do mês.

Uma das catadoras da cooperativa e integrante do Comitê de Catadores da Cidade de São Paulo, Nanci Darcolete Nazareth, reclama da falta de materiais e demonstra preocupação com a diminuição dos recicláveis após a criação de centrais de triagem mecanizadas, anunciada pela prefeitura no último dia 20 de maio. “A gente recebia três caminhões por dia e há cerca de um mês está vindo só um e de maneira irregular. Estamos tentando fazer coleta com nossa caminhonete, mas não dá conta”, afirma Nanci. E continua: “nossa preocupação é de não ser feita uma campanha de conscientização para aumentar a coleta seletiva antes de serem implantadas as mecanizadas, e que essa nova demanda acabe sugando o material das cooperativas”.

Com o intuito de aumentar a quantidade de materiais reciclados na cidade de São Paulo, de cerca de 2% para 10%, o prefeito Fernando Haddad (PT) anunciou a criação de quatro centrais de triagem mecanizadas, que deverão custar R$ 74 milhões. A previsão é que cada uma destas novas centrais consiga reciclar 250 toneladas por dia, gerando cerca de 120 novas vagas de trabalho. Hoje, uma central de triagem conveniada com a prefeitura – não mecanizada – recicla esta mesma quantidade em um mês. Em comparação com outras metrópoles de países em desenvolvimento, observa-se que, segundo a pesquisa Un-Habitat, de 2010, as cidades indianas de Bangalore e Délhi, por exemplo, possuem taxas consideravelmente maiores de resíduos reciclados: 28% e 27%, respectivamente.

De acordo com o Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), o recurso seria suficiente para a criação de 17 novas centrais de triagem que dariam emprego para 1.600 catadores. Segundo Eduardo Ferreira de Paula, um dos fundadores do MNCR e articulador do movimento na cidade de São Paulo, não há perspectivas para a criação de centrais que não sejam mecanizadas. “Estamos nos reunindo com a prefeitura por meio do Comitê da Cidade, mas esperamos um diálogo mais efetivo e que gere resultados com inclusão dos catadores”, diz Eduardo.

Entre as reivindicações do MNCR, de acordo com ele, está a criação de centrais de triagem conveniadas com a prefeitura e a participação de catadores na gestão das centrais mecanizadas. “Já começamos a discutir com o governo qual a melhor forma para a geração de trabalho e estamos brigando para que os catadores participem das mecanizadas que vão ser operadas pelas concessionárias”, defende. De acordo com divulgação da Autoridade Municipal de Limpeza Urbana (Amlurb), os três primeiros anos de operação das centrais de triagem mecanizadas serão de responsabilidade das empresas concessionárias Loga e EcoUrbis, que realizam a coleta e a gestão de resíduos na cidade.

Em resposta, o presidente da Amlurb, Silvano Silvério, acredita que tanto a questão da expansão da coleta seletiva quanto a da inclusão de catadores de materiais recicláveis poderão ser resolvidas com a criação de um sistema de coleta seletiva no município. Quanto às novas centrais de triagem, Silvano explica que terão custo operacional de R$ 380 mil, com receita bruta de R$ 1,7 milhão. “A ideia é que o superávit seja utilizado para remunerar os catadores como também para repartir com o conjunto de outros catadores que participam da coleta seletiva no município. Ainda estamos estudando a melhor forma de construir esse sistema, mas com certeza será feito com a participação dos catadores; a gente está fazendo tudo em conjunto com eles”, afirma.

Atualmente, a cidade de São Paulo possui cerca de 20 mil catadores de materiais recicláveis, dentre eles 16 mil trabalham de forma autônoma, 3.900 em cooperativas e associações e, de acordo com o atual Plano de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos do município, cerca de 1.100 em cooperativas conveniadas com o governo municipal.

No jardim Partanal, na zona leste de São Paulo, a cooperativa Nova Esperança – conveniada com a prefeitura – também teve reduzida a quantidade de materiais recebidos no último mês. “Nós continuamos recebendo os materiais, mas em menor quantidade. Só conseguimos manter o ritmo de trabalho porque fizemos um trabalho de conscientização ambiental e temos parceria para receber os materiais de um shopping”, relata a catadora Selma Maria da Silva.

Quanto à falta de materiais em cooperativas que recebem os caminhões da concessionária EcoUrbis, Silvano relata que a Amlurb está verificando o problema e que ainda não possui uma resposta sobre a irregularidade ou não do fornecimento de materiais: “ainda não temos uma resposta. No momento em que ficamos sabendo já comunicamos, repassamos o problema para a concessionária e pedimos para que ela tomasse as devidas providências”.

 

Remuneração aos catadores

Ainda no primeiro turno das eleições municipais do ano passado, alguns dos candidatos ao executivo municipal de São Paulo – entre eles o atual prefeito Fernando Haddad – assinaram uma carta em que se comprometiam com propostas elaboradas pelo MNCR. A carta estabelecia, entre outras coisas, o compromisso dos candidatos com a inclusão de catadores, o pagamento destes trabalhadores pelo serviço prestado, a implantação da Política Nacional de Resíduos Sólidos com participação popular e o posicionamento contrário à incineração do lixo na cidade.

Um dos pontos mais polêmicos – a remuneração pelo serviço prestado – ainda se constitui como ponto incerto para os catadores. “Eu participei da primeira reunião com o [secretário municipal de serviços] Simão Pedro e ele falou sobre o pagamento, mas não sabemos nem como, nem quando vai ser”, afirmou a catadora Nanci Darcolete.

De acordo com o presidente da Amlurb, o órgão gasta anualmente de 500 a 600 reais por cada tonelada reciclada pelas cooperativas (gasto em aluguel de galpões, compra de equipamentos, caminhões e o pagamento de IPTU e de contas de água e luz para as cooperativas conveniadas, por exemplo) e esta já seria uma forma de pagamento aos catadores. “Agora, nós estamos discutindo com o setor privado para que ele, dentro do sistema de coleta seletiva e da logística reversa, também possa aportar recursos para ajudar o município nesta remuneração”, conclui Silvano.

 

*Gabriel Maia Salgado é repórter do Observatório da Educação, da ONG Ação Educativa, e co-autora do livro “Catadores(as) e a metrópole: identidade, processo e luta”.

Foto: deltafrut/CC

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