Catadores(as) e a Metrópole

Identidade, processo e luta

A catadora mais antiga do Brasil

Tereza Felipe Costa é conhecida entre os integrantes do movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR) como a catadora mais antiga do Brasil. O reconhecimento é impreciso, já que a catadora não tem certeza sobre sua data de nascimento. Acontece que Dona Terezinha foi registrada duas vezes, e só dá conta do último registro, segundo o qual nascera em 1946 e estaria às vésperas de completar 71 anos, e não se aproximando dos 80, como acredita.

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foto: Maju Carvalho

Essa sorridente senhora é fundadora da Casa de Acolhida Magnália Dei, – latim para “Maravílha de Deus”– no Itaim Paulista, zona leste de São Paulo. Acolhida é um tema que Dona Terezinnha entende muito bem. Mineira da cidadede Claraval, ela chegou adolescente ao estado de São Paulo, em 1956, quando foi adotada por um casal em Ribeirão Preto. Casou-se poucos anos depois com Vitor e partiram juntos para a capital paulista. O casal morou nas ruas nos primeiros três anos mas, com a renda de bicos e da coleta de materiais recicláveis, foi economizando dinheiro em uma caderneta de poupança, alimentando o sonho de comprarem uma casa própria. Nessa época, a catadora já participava de movimentos de moradia e cuidava dos filhos das mulheres que faziam coleta nos lixões (em São Paulo, aterros irregulares funcionaram na clandestinidade até 2001).

A casa foi conquistada já nos anos 60, um terreno no bairro Itaim Paulista, que passou a servir de abrigo para as os filhos de suas colegas de trabalho. Apesar de precisarem andar muito, as mães preferiam deixar seus filhos com Dona Terezinha, pois assim evitavam a exposição à insalubridade do lixão. “Eu sou a primeira moradora daqui, cheguei em 1962, quando ainda era um brejo danado”, relata. A catadora conta que limpou o mato do local junto com seu marido, falecido no início dos anos 2000.

Com o passar do tempo, “as catadoras do lixão foram seguindo seus caminhos, mas os filhos foram ficando”. É assim que Tereza explica os 45 filhos que possui, apenas dois deles biológicos – embora não considere válida esta distinção, como faz questão de reafirmar, “já que todos possuem meu sobrenome e foram cuidados da mesma forma”. Apesar do orgulho de sua biografia, que enfatiza ao reconhecer que “uma história bem vivida igual a essa, vai ser difícil de achar”, Terezinha descreve a Magnália Dei uma família grande, “com uma mãe comum, igual a qualquer outra”.

Talvez os desafios que deram origem a Magnália Dei é que não sejam assim tão comuns. Para poder continuar cuidando de seus acolhidos, a partir do 25º membro a catadora precisou criar uma associação, seguindo a recomendação da assistente social que acompanhava o crescimento da família e a cada retorno encontrava um novo morador.

Cuidar de tantas pessoas sempre exigiu persistência. Para assegurar que tantos protegidos teriam o de comer, Terezinha esperava o fechamento do mercado de frutas e verduras para coletar a comida que não foi vendida antes que fosse descartada. Das 22 às 4 horas da manhã, permanecia no local aguardando os alimentos e, contando também com ao apoio de vizinhos, garantia o sustento de seus filhos. Dona Terezinha também conseguiu garantir-lhes estudos e muitos deles exercem suas profissões em áreas como contabilidade e direito.

Como são muitos filhos, é difícil que todos se reúnam, a não ser que Dona Terezinha resolva fazer um “chamado especial”, como ela conta. A catadora gosta de acompanhar o crescimento de seus netos e se pergunta sorrindo: “o que não acaba neste mundo é reciclagem e criança, né?”.

Reciclagem é como Dona Terezinha se refere aos resíduos sólidos que coleta para revender. De acordo com Terezinha, a produção é modesta, mas não a preocupa, pois antes de obter lucro, sua intenção é recuperar pessoas. A vocação maternal da Dona Terezinha fica clara quando ela fala sobre o processo de acolhida dos seus filhos na Magnália Dei. “Se um deles chega bêbado ou drogado em casa, não adianta brigar. A gente dá banho, dá comida e põe para dormir. No outro dia a gente conversa e descobre o que está acontecendo. Se acontecer novamente, a gente faz de novo quantas vezes precisar”, explica.

Dona Terezinha conta que ainda tem vontade de acolher mais pessoas e ajudá-las a crescer. Mas deixa clara a diferença entre o que faz e o trabalho de assistente social. “Para isso, precisa ficar estudando muito tempo e é outra coisa. Eu sou só a mãe, mesmo,” responde.

Esta é uma versão editada das histórias do livro Catadores e a Metrópole: Identidade, Processo e Luta. Tem muita gente guerreira nele. Leia o livro aqui.

Um comentário em “A catadora mais antiga do Brasil

  1. Geovanna Tripari
    30/07/2018

    Incrível!

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Publicado em 28/11/2017 por em Uncategorized.

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